domingo, 26 de fevereiro de 2012

nina 1969, brussels 2008

acendi uma vela a santo antônio o das preces eloquentes dos desejos mais ardentes e falsos pretendentes para me salvar das rimas torpes dos falidos amores e da minha própria falência, aqui não tem inverno, tem a chama santa e o meu pouco a minha alma casta. as letras somem e eu só posso ficar sem entender, sem saber se leu, se delas se desfez, agora está acostumado, familiarizado, me tem por todo lado

sábado, 25 de fevereiro de 2012

o palco de guerra me fez armar

pois só o consentimento é capaz de dissolver enganos, dissimular quaisquer aproximações e fomentar planos que ultrapassam a linha imaginária das reais limitações do colchão. e se eu nelas me apoiava, joelho em ângulo reto, postura torta e posição incômoda de quem se inquieta, eu juro, com toda a verdade que ainda me resta, não esperava nada além daquela encenação. se fiquei por tanto tempo, foi por gratidão.

embaraçara

eu do sétimo, você do décimo sexto ouvíamos lá de baixo o rebuliço infantil um tanto quanto caricato para um final de tarde de feriado. um tanto quanto coincidente, os nomes dos pimpolhos que chamavam uns aos outros, para, mauro, você quem começou, e o mauro lá de baixo provavelmente retrucaria ávido, até que nesse ponto a sara sete andares acima se desopila com as ocupações da área de serviço. a mesa que escolhi para me servir de isolamento espiritual, abarrotada de fruteira e planta artificial, serviu para provar que nada deve ser levado a sério aqui dentro. serviu para me lembrar que nada resta senão uma troca de olhares constrangedora, que há dez anos poderia ser descrita como a separação, o abismo entre os amantes, dois polegares de distância. sem me dar direito de aspas, flutuei por semanas sobre as cinco linhas, que passei a lápis e paixão e tomou forma de poesia.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

sinais amarelos

não acenda a luz, para mim é mais fácil falar assim, sem que vejam a minha boca. você sabe que não resisto por muito tempo a um olhar, nem mesmo o seu; assim é melhor. dê-me um cigarro, mauricio: fume você também mas fique aqui; você tem que ouvir isto até o final. depois pode fazer o que quiser; há um revólver na minha escrivaninha e um telefone na sala. mas agora, fique. você passou todo aquele verão longe de nós; eu pensei muitas vezes em você, sempre que recordava os nossos anos de estudantes; o fim deles, esta vida de hoje, esta independência tanto tempo desejada e que se traduz num amargo sabor de solidão... sim, pensei em você mas pensava ainda mais no sonho; e nunca, entende, nunca em todas essas noites de insônia pude dar um só passo à frente... chegava com nitidez até o momento em que aquilo parecia flutuando e se ouvia novamente o chapinhar que parecia mãos de afogados querendo sair do rio... aí cessava tudo; tudo. se pelo menos tivesse lembrado que sabia! deve haver sonhos piedosos, amigo; sonhos que felizmente se esqueceram de acordar; mas aquilo era uma obsessão torturante, como um caranguejo vivo no estômago do peixe, vingando-se de dentro para fora... e eu não estava louca, mauricio, como não estou agora; pare de pensar isso porque se engana. acontece que aquele sonho me parecia real, diferente dos sonhos de sempre; havia profecia, anúncio... algo assim, mauricio; havia ameaça e prevenção... e horror, um horror branco, viscoso, um horror sagrado... lucien deve ter entendido isso muito bem já que nunca mais mencionou meu sonho e eu preferia me calar, porque naquele período em que você partiu nós dois estávamos à beira de uma separação definitiva. cansados mutuamente de inúteis concessões, de perpetuar afetos que nele já haviam morrido e que eu precisava matar por minha vez... você não suspeitava de uma coisa assim? ah, é que lucien não lhe contaria; nem tampouco eu. nosso mundo era outra coisa. nosso, sabe; impossível cedê-lo a outros nem que fosse só para explicar. e estávamos chegando ao fim desse mundo e era preciso abolir suas portas, continuar por caminhos divergentes.

não dizíamos nada, entende, porque não tínhamos mais nada a dizer-nos, mas toda vez que eu olhava para lucien tinha a impressão de que estava pálido, parecia preparar-se para definir uma situação imprecisa que atormentava. andávamos, andávamos, e não sei quanto tempo continuamos assim, entrando em áreas que eu não conhecia, longe desta casa, fora da zona habitada, na parte onde o rio começa a gemer e a flexionar a cintura como uma cobra se queimando.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

amsler grid

beautiful and kind person on the other side of the earth,
where can I find a safe place that holds in this world? how can I do to undo what has happened to me? do you know of anything? where is my better life? when. how.

domingo, 5 de fevereiro de 2012

sabia que você ia trazer seus instrumentos invadir minha cabeça onde um dia tocava uma orquestra la la la que feliz era essa minha época, agora decidi não te enviar mais e-mails pois assim tão somente e sim, te deixo num espaço em branco para deduzir que fim tive eu mesmo sendo este apenas o começo de um livro de fins. e no tal espaço, você fica a pensar se caí por inteiro, ou não, apenas me curvei e tomei juízo. prometi que não responderia, nem a mim, nem a ninguém. mas escrever isso também me enche de peso.