terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

sinais amarelos

não acenda a luz, para mim é mais fácil falar assim, sem que vejam a minha boca. você sabe que não resisto por muito tempo a um olhar, nem mesmo o seu; assim é melhor. dê-me um cigarro, mauricio: fume você também mas fique aqui; você tem que ouvir isto até o final. depois pode fazer o que quiser; há um revólver na minha escrivaninha e um telefone na sala. mas agora, fique. você passou todo aquele verão longe de nós; eu pensei muitas vezes em você, sempre que recordava os nossos anos de estudantes; o fim deles, esta vida de hoje, esta independência tanto tempo desejada e que se traduz num amargo sabor de solidão... sim, pensei em você mas pensava ainda mais no sonho; e nunca, entende, nunca em todas essas noites de insônia pude dar um só passo à frente... chegava com nitidez até o momento em que aquilo parecia flutuando e se ouvia novamente o chapinhar que parecia mãos de afogados querendo sair do rio... aí cessava tudo; tudo. se pelo menos tivesse lembrado que sabia! deve haver sonhos piedosos, amigo; sonhos que felizmente se esqueceram de acordar; mas aquilo era uma obsessão torturante, como um caranguejo vivo no estômago do peixe, vingando-se de dentro para fora... e eu não estava louca, mauricio, como não estou agora; pare de pensar isso porque se engana. acontece que aquele sonho me parecia real, diferente dos sonhos de sempre; havia profecia, anúncio... algo assim, mauricio; havia ameaça e prevenção... e horror, um horror branco, viscoso, um horror sagrado... lucien deve ter entendido isso muito bem já que nunca mais mencionou meu sonho e eu preferia me calar, porque naquele período em que você partiu nós dois estávamos à beira de uma separação definitiva. cansados mutuamente de inúteis concessões, de perpetuar afetos que nele já haviam morrido e que eu precisava matar por minha vez... você não suspeitava de uma coisa assim? ah, é que lucien não lhe contaria; nem tampouco eu. nosso mundo era outra coisa. nosso, sabe; impossível cedê-lo a outros nem que fosse só para explicar. e estávamos chegando ao fim desse mundo e era preciso abolir suas portas, continuar por caminhos divergentes.

não dizíamos nada, entende, porque não tínhamos mais nada a dizer-nos, mas toda vez que eu olhava para lucien tinha a impressão de que estava pálido, parecia preparar-se para definir uma situação imprecisa que atormentava. andávamos, andávamos, e não sei quanto tempo continuamos assim, entrando em áreas que eu não conhecia, longe desta casa, fora da zona habitada, na parte onde o rio começa a gemer e a flexionar a cintura como uma cobra se queimando.

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